A ARTE COMO BÚSSOLA NOS LABIRINTOS DO AFETO
É com uma mistura de responsabilidade e esperança que aceito o convite para prefaciar esta obra. Em meio aos intensos preparativos para a exposição «O Brasil de Portinari», no Museu Nacional da China, em Pequim, vejo nestas páginas um esforço que ecoa o que sempre busquei em minha própria caminhada: o uso da arte não como mero adorno, mas como ferramenta de denúncia, compreensão e acolhimento da condição humana.
A arte, como bem definem os autores aqui reunidos, estabelece-se como um espelho fiel que reflete a alma da sociedade e da família. Ela é um “barômetro cultural” que preenche as lacunas em que a rotina falha. Ao folhear estes artigos, percebo que os autores não se limitaram à frieza técnica dos códigos; eles mergulharam na “camada simbólica e profundamente humana” dos vínculos, tratando a sucessão e o Direito não como frias engrenagens patrimoniais, mas como fios invisíveis que ligam gerações.
O DIREITO QUE APRENDE A SENTIR
Este livro nos convida a um deslocamento necessário de olhar. Em vez de focarmos na “tirania senil” ou na velhice como sinônimo de declínio, somos instigados a enxergá-la como um território fértil e em expansão. É inspirador ler sobre a “revolução silenciosa da longevidade” e sobre como o aprendizado contínuo após os 60 anos é uma escolha de bem viver.
As reflexões aqui presentes utilizam obras clássicas, como o Rei Lear, de Shakespeare, para nos alertar sobre os perigos da surdez emocional e da rigidez no envelhecer. Relembram-nos que a verdadeira sucessão não se resolve apenas com contratos, mas com a forma como o fundador lida com o legado e a ideia de continuidade.
A FAMÍLIA COMO TERRITÓRIO DE CRIAÇÃO E CURA
A análise das relações familiares apresentada é corajosa e multifacetada. Os textos enfrentam temas sensíveis que o Direito, sozinho, muitas vezes não consegue esgotar, como:
• adoção e identidade: através de obras como o filme “Lion”, discute-se o impacto do desconhecimento da origem e como o amor não se mede por exclusividade, mas pela capacidade de somar histórias sem fragmentar a identidade;
• multiparentalidade e socioafetividade: o reconhecimento de que “as identidades dependem da ligação com o outro” permite que os laços de afeto se igualem aos biológicos, validando a pluriparentalidade como uma realidade de cuidado e proteção;
• a presença paterna ativa: o livro confronta a cultura patriarcal para defender uma paternidade responsável que rompa com o modelo do “pai visitante” e promova uma divisão equitativa de deveres, combatendo a sobrecarga materna histórica.
O LEGADO E A MEMÓRIA
Finalmente, as vozes desta obra convergem para a ideia de que a cultura é a memória que carregamos e transmitimos ao longo das gerações. Seja revisitando a trágica e mística história de Pedro e Inês de Castro ou analisando as dores de um divórcio em “História de um Casamento”, o que se busca é a preservação da saúde emocional dos envolvidos, especialmente das crianças.
Como filho de um artista que dedicou sua vida a pintar os ritmos e as cores da alma brasileira, saúdo este projeto que propõe um Direito das Famílias e um Direito das Sucessões mais “eudemonistas”, focados na busca pela felicidade e na dignidade de cada indivíduo. Que estas páginas sirvam de guia para que possamos, como diz uma das belas passagens deste livro, “preparar o futuro sem desaparecer do presente”.
João Candido Portinari, 19 de janeiro de 2026.
Fundador e Diretor-Geral do Projeto Portinari
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